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A fé não se herda: o que a família real de Judá ensina sobre seguir o Senhor

Se a fé passasse de pai para filho como se herda a cor dos olhos ou o sobrenome, a história dos últimos reis de Judá seria uma linha reta. Seria toda de luz ou toda de trevas. Mas não é isso que encontramos.

Em quatro gerações de uma mesma família real, a fidelidade e a rebeldia se alternam de um jeito quase difícil de acreditar: um pai que institucionaliza a idolatria, um filho que se torna um dos reis mais fiéis da história, um neto que reconstrói tudo o que o pai havia derrubado, e um bisneto que volta o coração inteiro ao Senhor sem ter tido de quem aprender.

Essa família aparece quase de passagem em 2 Reis 16–25, os capítulos que o Vem, Segue-Me nos leva a estudar esta semana, e que a própria lição descreve como “os anos sombrios da história de Judá”, iluminados por “dois pontos brilhantes”.

Ao estudarmos essa passagem das escrituras, podemos nos perguntar, como pais e filhos: estou dando continuidade a uma herança de fé, ou rompendo uma herança de descrença?

Acaz: o ponto de partida que não escolhemos

Toda linhagem começa em algum lugar, e essa começa mal. Acaz, rei de Judá, não apenas tolerou a idolatria de seu tempo, ele a levou para dentro do templo. Ao visitar Damasco, viu um altar pagão de que gostou, mandou fazer uma cópia e a instalou na casa do Senhor, deslocando o altar de bronze para um canto (2 Reis 16:10–16). O texto ainda registra algo brutal: ele “queimou a seu filho no fogo, segundo as abominações dos gentios” (2 Reis 16:3).

Alguns de nós começamos a partir de um Acaz. Não escolhemos a família em que nascemos, nem a fé, ou a falta dela, que nos foi transmitida. Há quem cresça sem nunca ter ouvido falar de Deus em casa, quem herde feridas, vícios, silêncios espirituais. A história de Judá deixará isso evidente já no capítulo seguinte. O altar do seu pai não precisa ser o seu altar.

a fé não se herda

Ezequias: alguém pode romper a corrente

Do pai que corrompeu o templo nasce o filho que o purifica. Ezequias fez o contrário de Acaz: derrubou os altares, removeu os lugares altos e destruiu até a serpente de bronze do tempo de Moisés, quando percebeu que o povo passara a adorá-la (2 Reis 18:4). E as escrituras lhe reservam um dos maiores elogios de todo o Antigo Testamento: “confiou no Senhor Deus de Israel, de maneira que depois dele não houve seu semelhante entre todos os reis de Judá” (2 Reis 18:5).

Repare que Ezequias não teve um lar que o preparasse para isso, ele escolheu. E é aqui que a história toca numa das doutrinas mais libertadoras da Restauração: a responsabilidade é individual. “Cremos que os homens serão punidos por seus próprios pecados, e não pela transgressão de Adão”, diz a segunda das Regras de Fé, e o princípio vale para qualquer transgressão, não só a de Adão.

O profeta Ezequiel, que viveu pouco depois desse período e conhecia bem a decadência dessa mesma nação, foi ainda mais direto ao desmontar um velho ditado segundo o qual os filhos pagariam pelos pais: “o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho; a justiça do justo será sobre ele, e a impiedade do ímpio será sobre ele” (Ezequiel 18:20).

Em outras palavras: ninguém está preso ao lugar onde a corrente foi deixada. Ezequias recebeu trevas e escolheu a luz. Essa possibilidade continua aberta para todo aquele que sente carregar uma história difícil.

Manassés: a fé que não passa “para baixo”

Se a história parasse em Ezequias, tiraríamos a lição errada, a de que basta um pai justo para garantir um filho justo. O capítulo 21 desfaz essa ilusão da forma mais dolorosa possível.

Ezequias fez tudo certo, e ainda assim seu filho Manassés reconstruiu os lugares altos que o pai derrubara, ergueu altares a deuses estranhos dentro do templo e encheu Jerusalém de sangue inocente (2 Reis 21:1–16). Reinou cinquenta e cinco anos, mais do que qualquer outro rei de Judá, boa parte deles desfazendo a obra do pai. O melhor dos exemplos não bastou.

Pais fiéis às vezes veem filhos se afastarem e é normal vermos até nos dias de hoje julgamentos por isso. O Livro de Mórmon registra o mesmo fenômeno entre pessoas que tinham toda razão para crer: houve uma geração que “não acreditou nas tradições de seus pais”, que não entendia a palavra e “não quis ser batizada” (Mosias 26:1–4). Ter pais fieis não significa que é uma garantia de que a pessoa também será.

O relato paralelo em Crônicas conta o que 2 Reis não nos mostra: preso, humilhado e aflito no exílio, Manassés “orou ao Senhor”, humilhou-se profundamente diante do Deus de seus pais, e o Senhor “se deixou aplacar” e o restaurou (2 Crônicas 33:12–13).

O pior elo dessa família não estava perdido para sempre. Se há uma advertência em Manassés, a de que nenhuma herança garante a fé, há também um consolo: nem mesmo quem desperdiçou a melhor das heranças está fora do alcance da misericórdia.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Josias: escolher a fé sem ter de quem herdá-la

Depois de Manassés veio Amom, seu filho, que retomou o mal e teve um reinado curtíssimo (2 Reis 21:19–22). E então, dessa sequência de sombra, surge Josias, bisneto de Ezequias, neto de Manassés, filho de Amom. Tornou-se rei aos oito anos, sem pai nem avô que lhe ensinassem a temer o Senhor. Pela lógica das gerações, ele não tinha motivo algum para ser fiel.

Mas, Josias “se converteu ao Senhor com todo o seu coração, e com toda a sua alma, e com todas as suas forças, conforme toda a lei de Moisés” (2 Reis 23:25). O presidente Spencer W. Kimball chamou a história desse rei de “uma das melhores histórias de todas as escrituras” e não é difícil entender por quê.

Durante uma reforma no templo, um sacerdote encontrou o livro da lei, que havia se perdido, literalmente esquecido dentro da casa de Deus por tempo suficiente para que reis governassem sem ele. Quando as palavras foram lidas em voz alta, o jovem rei rasgou as vestes e chorou, e então fez, diante do povo, o seu próprio convênio de seguir o Senhor de todo o coração (2 Reis 22:8–11; 23:3).

Josias não herdou a fé, ele a encontrou. E teve de encontrá-la sozinho, como muitos de nós precisamos fazer. Essa é uma verdade que o Livro de Mórmon ilustra na figura de Enos, filho de um pai justo, Jacó. Mesmo criado “na disciplina e admoestação do Senhor”, Enos ainda precisou lutar diante de Deus por conta própria, passou um dia inteiro e a noite em oração até que a voz do Senhor lhe chegasse e seus pecados fossem perdoados (Enos 1:1–5). O bom pai plantou; mas a conversão teve de brotar no próprio Enos.

Quem somos nós na linhagem da fé?

Você pode ser o Ezequias ou o Josias da sua linhagem, o primeiro a crer, o que redescobre a palavra perdida, o que quebra um padrão que já durava gerações.

Ou pode ser quem cresceu numa família de fé forte. A herança é um presente genuíno, e o Senhor a honra, é grandioso nascer onde a palavra é lida e o convênio é vivido. Mas ela nunca substitui a decisão pessoal. O convênio dos seus pais não é o seu convênio, do mesmo modo que o de Ezequias não protegeu Manassés. O evangelho está sempre a uma geração de ser esquecido, Judá literalmente perdeu as escrituras dentro do próprio templo, e a uma pessoa de ser reencontrado.

O presidente Heber C. Kimball advertiu que chegaria o tempo em que ninguém conseguiria sobreviver espiritualmente com “luz emprestada”, cada um teria de ser guiado pela luz que traz dentro de si, uma advertência repetida muitas vezes por líderes da Igreja em conferência geral.

O élder David A. Bednar também explicou por que as cinco virgens prudentes da parábola não puderam repartir o seu azeite: “o azeite da conversão não podia ser emprestado”. A luz de um pai ilumina o caminho, mas não acende a lâmpada do filho. Essa lâmpada cada um precisa acender por si mesmo.

Imagem: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Os filhos de membros fiéis precisam, em algum momento, deixar de crer “porque os pais creem” e passar a crer por si, e os pais mais sábios são os que criam espaço para essa conversão pessoal acontecer, em vez de tentar terceirizá-la.

Os conversos, por sua vez, não começam em desvantagem alguma: Ezequias e Josias provam que uma vida inteira de fé pode nascer sem qualquer herança prévia. E ninguém, nem mesmo quem carrega o peso de um passado familiar difícil, nem mesmo quem, como Manassés, desperdiçou o que recebeu, está fora do alcance de recomeçar.

A pergunta que essa linhagem deixa, portanto, não é “de que família você veio?”. É “o que você vai escolher?”.Vale a pena parar e reconhecer qual corrente você tem nas mãos neste momento, a que recebeu e a que vai entregar.

Porque, seja para dar continuidade a uma herança de fé, seja para romper uma herança de descrença, a escolha nunca foi dos seus pais nem dos seus filhos, ela é sua. E, como aconteceu com um menino de oito anos que encontrou a palavra perdida e voltou o coração inteiro ao Senhor, ela está disponível hoje.

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